Os anos.



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Fosse por mim e deixaria morrer à fome os anos.
A contabilidade excessiva do corpo que, ao habituar-se aos meses, se vai deixando ficar para trás do futuro.
A repartição dos tempos facturando as dívidas passadas: o dever do vivo é ter as contas fechadas com o que lhe coube de mortalidade no mundo.
Penhoram-se pessoas, palavras pensadas, leiloadas em caixões prestes a fechar, – quem dá mais do que uma flor? – Liquidado à terra por duas ou três coroas de defunto, ao corpo resta-lhe ainda esperar o fecho do tempo que, como qualquer outro serviço público, só fecha portas à saída do último utente.
Penso no absurdo de toda a parafernália, enquanto me sento mais uma vez junto a uma coroa; é o futuro, quando a lápide colocada de fresco servir apenas para calcetar mais uma secção do cemitério.
Uma herança de ossos, que se sobe sobre a morte de outros para se saber o quanto de imortalidade nos sobrará da morte. Como eu soube ao descer por mortes centenárias, buscando-lhes raízes em montes silvados para descobrir que tenho guardada a outra parte da alma num lado avesso às ondas do mar.

Fosse por mim e morreriam à fome os anos: cães magros arrastando as ruas com o seu latido de abandono, amarrando-as aos meus pés para que lhes sinta o peso em cada passo, e eu, que me farto das cidades nos calcanhares, levando-as comigo sem as olhar, sem as alimentar, que mortas de abandono talvez me larguem as ruas, os tempos e os anos, que nunca terão futuro suficiente para me pagarem as horas de que lhes sou credora.

Beatriz Hierro Lopes

Meu amor, a casa está tão sozinha que os pássaros vêm morrer lá dentro.



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Meu amor,
a casa está tão sozinha que
os pássaros vêm morrer lá dentro.
Nada mudou, mas falta
a mão para acariciar o gato
e acolher a ninhada secreta,
o sorriso que enchia o tanque
e fazia crescer a horta.

Já ninguém apanha as laranjas mais altas
ou usa a sombra da nogueira.
E até os ciprestes se tornaram redundantes
ao ponto de os abatermos:
a ausência diz-se melhor no esplendor
inútil das rosas sem esse olhar,
nas papoilas raras que duram
o tempo de uma fotografia.

Um dia, deixaremos também uma casa assim,
casulo abandonado a sobreviver-nos.
Um de nós escutará as asas ansiosas
na chaminé, antes de pousar o livro
e amparar o último pássaro.
Só parecerá menos triste
porque não teremos, então,
nada mais a perder.

Inês Dias
Resumo, a poesia em 2011
2012

Domingo hoje.



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É domingo hoje
mas nós não saímos

é o único dia
que não repetimos

e que dura menos

Mas põe o teu rouge
que eu mudo a camisa

Tomaremos chá
leremos um pouco

e iremos à varanda
absortos

António Reis
in Novos Poemas Quotidianos

Lobos #2



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Amo os lobos, porque amo os temperamentos fortes e rectos que preferem a violência à manha.
Os temperamentos poderosos e ricos são um terreno privilegiado para a santidade e a delicadeza de um ser forte é ao mesmo tempo mais virtuosa e mais subtil que a de um fraco.
Quando se é naturalmente tentado a dominar os outros, mais belo é então o domínio de si próprio.
- Raymond Léopold Bruckberger

Lobos #1



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As pessoas da vila não gostavam de mim,
porque eu dizia sempre o que pensava
e também porque atingia abertamente, com protestos,
aqueles que me atacavam, sem ocultar a mágoa
ou alimentar o rancor.
Louva-se muito o acto desse rapaz espartano
que escondeu sob a sua túnica um lobo,
deixando, sem um único lamento, que este o devorasse.
Eu penso que há mais valentia em agarrar o lobo
e combate-lo abertamente, mesmo em plena rua,
por entre a poeira levantada e os uivos de dor.
A língua pode ser desordeira,
mas o silêncio envenena a alma.
Quem quiser, que me censure ─ eu estou satisfeito.


Edgar Lee Masters
Spoon River
Relógio d´Água
2003

ÁLVARO MUTIS (1923-2013)



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SONATA

Otra vez el tiempo te ha traído
al cerco de mis sueños fanerales.
Tu piel, cierta humedad salina,
tus ojos asombrados de otros días,
con tu voz han venido, con tu pelo.
El tiempo, muchacha, que trabaja
como loba que eiitierra a sus cachorros
como óxido en las armas de caza,
como alga en la quilla dei navio,
como lengua que lame la sal de los dormidos,
como el aire que sube de Ias minas,
como tren en la noche de los páramos.
De su opaco trabajo nos nutrimos
como pan de cristiano o rancia carne
que se enjuta en la fiebre de los ghettos.
A la sombra del tiempo, amiga mía,
un agua mansa de acequia me devuelve
lo que guardo de ti para ayudarme
a llegar hasta el fín de cada día.

Álvaro Mutis


ANTÓNIO RAMOS ROSA (1924-2013)



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Já muito fragilizado, o poeta, que estava hospitalizado desde quinta-feira, teve ainda forças para escrever os nomes da sua mulher, a escritora Agripina Costa Marques, e da sua filha, Maria Filipe. E depois de Maria Filipe lhe ter sussurrado ao ouvido aquele que se tornou porventura o verso mais emblemático da sua obra — “Estou vivo e escrevo sol” —, o poeta escreveu-o uma última vez, numa folha de papel. Público


«Em qualquer parte um homem
discretamente morre.

Ergueu uma flor.
Levantou uma cidade.

Enquanto o sol perdura
ou uma nuvem passa
surge uma nova imagem.

Em qualquer parte um homem
abre o seu punho e ri.

Antologia Poética
António Ramos Rosa
Ed. Dom Quixote

"Finding Vivian Maier" - o documentário - e "The 8mm Films of Vivian Maier"



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o documentário sobre a fotógrafa Vivian Maier de quem já aqui falei,
estreou na semana passada no Toronto Film Festival.
Realizado por David Maloof e Charlie Siskel, relata a descoberta do seu arquivo fotográfico escondido e revela a sua história de vida.




***

The 8mm Films of Vivian Maier
These fragile, observational clips uncover Vivian Maier’s largely unseen experimentation with film. The New York-born photographer spent 40 years working as a nanny in Chicago, simultaneously fostering a secret passion for image-making that led her to document the urban life of America, enjoying her productive peak in the 50s and 60s. When she died in 2009, the thousands of images that she amassed during her lifetime were only just beginning to be discovered. After winning a bid for 30,000 of Maier’s negatives in a Chicago auction house in 2007, it took 6 months for Mr. Maloof to realize the importance of what he had purchased. VIA NOWNESS

Beautiful people do not just happen #2.



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Fervura
por Ana Cássia Rebelo aka Ana de Amsterdam


A adolescência trouxe-me uma espécie de fervura ao sangue. Foi por volta dos vinte anos que desejei morrer pela primeira vez. Contava lamelas de comprimidos. Pressionava pontas de faca contra os pulsos. Ficava à beira do passeio a sentir o corpo estremecer à passagem próxima dos autocarros. Subia ao telhado do prédio com o intuito de me atirar lá de cima. Apesar da angústia, sinto um conforto esquisito quando recordo esses instantes desesperados, sobretudo quando me chega a lembrança da beleza extrema do telhado do prédio dos meus pais. Abria a pequena porta de metal e o ar era subitamente puro, livre de fuligem cancerígena. Olhava em redor, só via céu, o alinhamento simétrico das torres de doze andares, a pista do aeroporto ao longe. Parecia-me que ali, naquela dimensão, mundo inóspito, silencioso, solidão muito branca, o ar voltava a chegar-me aos pulmões. A pouco e pouco passava-me a vontade de morrer. Deitava-me no declive de telhas, esverdeado de líquenes, sentia o vento no rosto, esperava que o tempo passasse.

Pensar na morte tornou-se num vício. Aliviava-me. Fazia listas de métodos, tentava perceber qual o mais eficaz e menos doloroso. Todos apresentavam desvantagens e dificuldades. Na queda havia o instante em que o corpo bate no passeio e o crânio se racha. Cortar os pulsos trazia o incómodo do sangue empapando as carpetes da sala e a certeza de morrer lentamente. O enforcamento parecia-me uma morte feia, abrupta, os enforcados morriam aos soluços, o corpo sacudido pelo estertor final, a língua de fora. Outra coisa me fazia rejeitar o enforcamento. Sabia que os enforcados perdiam o controlo do esfíncter e a ideia dos meus pais darem comigo morta, cheia de urina e fezes, envergonhava-me. Tomar comprimidos era, de longe, o melhor método, mas havia a possibilidade da falhar a dose, se não tomasse a quantidade certa corria o risco dos outros encontrarem artificialidade no meu gesto. A reflexão enfraquecia pois a minha determinação. Queria morrer, mas através de um gesto que fosse simples como beber um copo de água ou desligar um interruptor.

Durante a noite, deitada na cama, muitas vezes, pensei que a solução mais fácil era entregar o assunto a um especialista. Podia simplesmente contratar alguém para me matar. Havia maridos que contratavam assassinos para matar as suas mulheres e mulheres que contratavam assassinos para matar os seus maridos. Por que não havia eu de contratar quem me matasse? Estes pensamentos extraordinários chegavam geralmente depois de me masturbar a pensar em prostitutas com grandes mamas e vestidos de lantejoulas. A ideia do pistoleiro parecia-me boa, mas não tardei a perceber que a morte, encomendada e eficaz, era um pouco como as prostitutas de vestidos de lantejoulas: um luxo que não estava ao meu alcance. Não tinha dinheiro para contratar um assassino, e mesmo que tivesse, não conhecia nenhum. Vivia num bairro de classe média, pacato, perto de Sacavém. Havia apenas alguns heroinómanos que roubavam enciclopédias, loiças finas e garrafas das garrafeiras dos pais para assegurar a dose diária. Tudo era cinzento e deprimente. Encontrar ali um assassino não era fácil.

Mas, por mais que tentasse livrar-me dos pensamentos suicidas, a vontade de morrer não me largava. Tornei-me obsessiva, a ideia era-me tão agradável como sentir a luz da tarde coada pelas cortinas brancas no quarto da tia Dé ou observar a minha mãe, nas manhãs de sábado, limpando o pó do grande móvel escuro da sala. Sentia-me naturalmente desadequada, anormal, adensava-se a minha inquietação: não só me masturbava a pensar em mulheres prostibulares como sentia esse desejo latente de morte. Muitos anos passados, habituada à natureza cíclica desse desejo, a minha iniciação no desespero parece-me caricata. Às vezes, entre soluços e lágrimas, dá-me até vontade de rir. Tudo bastante dramático, sofrido, estupidamente inconsequente. Sei agora que, assim como somos pornográficos às escondidas, somos suicidas às escondidas. A vida tem um punhado de coisas boas, mas não é como se pinta. Quase sempre é aborrecida, uma desilusão, está cheia de sofrimento, tristeza, injustiça, ruas sujas e íngremes, crianças com fome, gente silenciosa e desesperada. Como não achar a vida insuportável? Não tenho dúvidas de que a morte é desejada por muita gente e constantemente. Se houvesse um método infalível, fácil, instantâneo, limpo, haveria no mundo uma mortandade grande, talvez fosse até preciso mandar construir crematórios, valas comuns, investir na formação de coveiros, técnicos de equipamento de cremação, cangalheiros. Mas há vinte anos, precisamente há vinte anos, não tinha o discernimento de hoje, vivia na certeza da minha singularidade. Dava voltas na cama, inquieta. Quanto mais pensava no assunto mais me convencia de que a morte era o melhor que a vida tinha para me oferecer.

Beautiful people do not just happen.



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" The most beautiful people we have known are those who have known defeat, known suffering, known struggle, known loss, and have found their way out of the depths. These persons have an appreciation, a sensitivity, and an understanding of life that fills them with compassion, gentleness, and a deep loving concern.
Beautiful people do not just happen. "

-- Elizabeth Kübler-Ross

WE CAN'T GET LOST.



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WE CAN'T GET LOST ANYMORE
by Jeremy Glass

We can’t jump off bridges anymore because our iPhones will get ruined. We can’t take skinny dips in the ocean, because there’s no service on the beach and adventures aren’t real unless they’re on Instagram. Technology has doomed the spontaneity of adventure and we’re helping destroy it every time we Google, check-in, and hashtag.

My best friend and I once got lost in Connecticut. We were juniors in high school, it was 2004, and we were lost in the state we’d grown up in together. We kept driving, hopeless and amused, using the signs on the road and our spotty intuition as our guides. We sang songs in the car as our cell phones, incapable of no more than a phone call, sat like bricks in our pockets. There wasn’t a map of the world conveniently in the palm of our hands, no app to see how many people had gotten lost before us, no way to research the best local diners in the state. We were lost and it was awesome. 
Flash-forward almost ten years later and I’m on the beach in the Rockaways with my little brother. We’ve been laying out in the sun for an hour and I’m checking my phone every five minutes to see if I’ve missed any calls from work. He’s feverishly texting the girl he’s been swooning over for days and I’m trying to decide whether I want to update my Twitter now or take a picture and upload it in the car. We get off the beach and wander on the boardwalk, I Google the best place for cheap seafood and we’re lead to a little restaurant a couple minutes from where we are. Yelp tells me to avoid the fish ‘n’ chips, so I settle on the clam chowder. My brother orders a beer and we talk about how hot it is. My weather app tells me it’s only getting hotter, I relay that to my brother. We’re about ready to go and he tells me he wants to take one more dip in the water before we head to the car. I agree. He was always competitive when it came to running, so we raced as fast as we could to the ocean and jumped in without hesitation. We laugh and surface, covered in seaweed, and I feel a dull vibration in the pocket of my shorts. I brush it off and dunk my head back underwater. I can’t see anything because my eyes sting and I feel my thigh vibrate again. I reach into my pocket and pull out my iPhone. Completely soaked, vibrating itself to death, hot and sluggish as a dog that’s been left in a car all day. I panic. My life is over. My life isn’t really over, but it’s over. 
It’s 1998 and my family and I are inside the Museum of Natural History. We’re waiting in line for tickets when my little brother tells me he needs to go to the bathroom. I nod and he leaves. Twenty minutes go by, I’m distracted and reading about dinosaurs and I hear my older brother ask where Adam went. I look around and notice he’s gone. I panic, we all panic. He doesn’t have a cell phone, no one has a cell phone. The only mobile phone is attached to my father’s car, which is parked god knows where. We all search for him, my older brother and mom are crying and I keep thinking that it’s my fault because I didn’t come with him to the bathroom. There’s no way to find him, he doesn’t know where he is, we were all miserably lost. Eventually a security guard brings him to us. He had wandered down towards the subway.
Back in the car with my best friend, we had given up trying to find even a hint of a way home and settled upon taking only left hand turns. We enter a strange town. I’ll never forget the name of it: Nepaug. We both say it out loud, concluding that the town must have been erected that very morning in preparation for our lost asses to end up within it. To our left is a strip-mall and to our right is a store that only says “Puppet Church” — it’s incredibly intriguing. Further down the road, we spot the oasis in the desert; Dairy Queen. We each order a milkshake and sit on the hood of my car, talking about what life is going to be like after high school.
I remember the time I picked up my girlfriend from her friend’s house in Massachusetts. She was going to school down in Georgia and this was the first time I’d seen her in months. “We’re back together…finally.” I tweeted, tagging both of our Twitter handles in the status. The flash on my iPhone annoys her and she asks me to put my phone away. I begrudgingly agree and I start to drive. I put my home address into the GPS and follow the voice. She asks me if I want to get lost with her. I ask her what she means and she tells me that she wants to get lost. I ask her where she wants to go and she shrugs. I tell her that there is an interesting looking coffee shop only 2.3 miles away and she sighs. I turn off the GPS and drive. A few minutes go by and I get antsy. I turn the GPS back on and follow the voice, she crosses her arms and is silent all the way back to my house.
 
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OS VOYEURS.